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terça-feira, 15 de setembro de 2015

Lições de Betty Lago

Lições de Betty Lago


Agora, ela era linda, respeitada como atriz, divertida nos momentos de redes sociais. Daqui para a frente, será um exemplo de persistência e empenho para conseguir o que queria.
Como observadora ao largo de sua vida, nem sempre conseguindo conviver juntas, entre tantos trabalhos e viagens, passo uma breve aula do estilo de viver da Betty.

Começo
Em 1972 era uma das vendedoras no atacado da Groovy, grife carioca que fazia sucesso, pertencia a Antonio Bernardo e Sonia Galotta. Durante uma reportagem sobre a coleção, não havia modelo para vestir as roupas. Aquela vendedora magra e alta resolveu o caso, vestiu tudo e fotografou para o Jornal do Brasil.
Algumas semanas depois, foi convocada para uma sessão no estúdio do JB da Av. Brasil. Caramba, já era outra pessoa - deu um jeito nos cabelos cacheados, fazia poses, tinha atitude, sem a timidez inicial. As fotos saíram com imagens dignas de profissionais, sem o falso glamour da moda da época. 


"Copiei as poses das revistas internacionais, treinei em frente ao espelho, sozinha", explicou.
Dali em diante, Betty foi convocada para desfiles e fotos, e se destacava pelo bom humor e inteligência no set de trabalho.

Mundo
Conversávamos sobre as perspectivas futuras dos trabalhos. Ela ouvia tudo e decidiu pela ideia de sair do Brasil. Nunca deixou de lembrar e citar que tinha sido levada até o antigo aeroporto do Galeão nos nossos fuscas, do Antonio e o meu, a pequena caravana de amigos que despachariam a beldade esperançosa. Da varanda do aeroporto, vimos a turbina do avião da Aerolineas pegar fogo, ainda no chão. Os passageiros foram desembarcados, Betty foi para o restaurante, que ficava isolado da tal varanda por vidro. Pensam que ela desistiu de viajar? De jeito nenhum, continuava animada, gesticulando por trás dos vridros para os amigos assustados.
Foi e voltou. Foi e ficou, numa época em que as modelos americanas, louras e esguias, reinavam nas passarelas internacionais.
Tinha que falar inglês, para entender os contratos e acordos. Munida de um curso em cassete, aprendeu praticamente sozinha a falar com perfeição e inteligência.
Nos anos 1980, quando comecei a assistir os desfiles internacionais, tinha vontade de aplaudir quando via Betty entrar nas passarelas de nomes como Claude Montana, Thierry Mugler, Valentino, Yves Saint Laurent, Oscar de la Renta. Seu rosto ilustrava páginas desenhadas por Antonio Lopez, o maior ilustrador da moda da época.
A princípio, era mais uma que entrava junto com mais meia dúzia de modelos, seguindo as marcações dos lançamentos de coleções dos anos 1980. Em pouco tempo, fazia entrada solo em Thierry Mugler e em uma das estações surpreendeu correndo sozinha, abrindo um desfile de Claude Montana, em Paris. "O que eu ia fazer? Entrar andando daquele jeito distante das modelos? Na hora, quando vi o canhão de luz focado em mim, decidi correr por toda a passarela'.

Quando havia tempo, saíamos para tomar um café perto do local da Semana de Moda. Claro, encontrávamos modelos, fotógrafos, produtores, agentes, estilistas (naquele tempo não eram chamados de designers). Nas mesas, Betty dominava os animados papos com seus comentários divertidos em inglês e francês - português, só comigo, a amiga brasileira boquiaberta com a desenvoltura da bela. Sim, bela, de vestidos Azzedine Alaïa de malha nude e pashminas jogadas nos ombros. Magra e alta, de escarpins, sempre reclamando que tinha que diminuir os quadris, para caber nos vestidos das coleções. Mas era sempre contratada, cada vez com mais destaque nos desfiles.

Outro mundo
A moda era pouco para Betty Lago. Estudou interpretação enquanto morava em Nova York. Voltou ao Brasil e começou a fazer teatro, novelas de TV. Liderou a primeira fase do GNT Fashion, era a apresentadora mais impagável e competente que tínhamos.
Trocou de lado - íamos juntas para as plateias de imprensa de John Galliano, que estava começando na Dior. Da Chanel, Valentino. Não se limitava a anotações em caderninhos, manobrava com câmeras de vídeo para obter imagens diferentes das oficiais. Nos intervalos, já que os shows eram no subsolo do Museu do Louvre, Betty ia às compras nas butiques do shopping. Nem hesitava em escolher botas e óculos com persianas no lugar das lentes, acessórios típicos do André Courrèges, peças absolutamente conceituais. "Ah, quem assiste ao programa adora me ver com estas coisas diferentes", dizia e saía feliz com suas sacolas recheadas de conceitos de moda.

Mais trabalho
A eterna animação e a aparente maluquice, típicas nossas, gente que circula na moda, mal escondiam uma seriedade e empenho. Sem medo de perder a imagem glamurosa, Betty fez de socialaite a empregada doméstica como atriz. Nos bastidores, montou uma estrutura completa de TV em duas salas em endereço no Jardim Botânico, incluindo duas ilhas de edição, computadores Mac coloridos, estantes abarrotadas de livros, revistas e referências de moda.
A antena detectou outro campo interessante: a internet. Milhares de seguidores acompanharam seus posts, as fotos no Instagram, os comentários diários. Um dos projetos foi o Calma, Betty, esquetes quase reality shows, no YouTube.

Criatividade, persistência, originalidade e principalmente bom humor marcaram a passagem de Betty Lago por aqui. Que Saint Laurent, de la Renta, Antonio Lopez a recebam de braços abertos lá do outro lado.
fonte:https://www.facebook.com/iesa.rodrigues.7?fref=photo